Para uma boa leitura Dr. Marcio Leite escreve: Experiência de quem trabalhou no sertão!

Uma das mais enriquecedoras experiências humanas que tive foi morar no sertão. Vale dizer que, quando nos referimos a experiências humanas, devemos nos afastar de julgamentos que empobrecem. Cabeça aberta e horizontes largos, esta a receita, ou de nada valerá. Vivi numa pequena cidade que foi submersa durante a construção da barragem de Sobradinho, no extremo norte da Bahia, e posteriormente reerguida alguns quilômetros adiante. Apesar de situada às margens do imenso reservatório de água, o maior lago artificial do mundo, sua gente guardava o jeito arisco das terras secas e dos bichos sobreviventes, as cabras em particular; dos mandacarus espinhosos e das aves de arribação. Tenho saudade do lamento triste dos carros-de-boi, das tardes inesgotáveis e lamuriosas, da cantoria monótona das novenas. Fui obrigado a me adaptar ao que chamei de medicina catingueira, pondo de lado alguns preceitos considerados indispensáveis. Nada é efetivamente indispensável quando se trata da experiência humana. Os homens e mulheres não eram os mesmos, com o devido respeito, e logo percebi que minhas ideias humanistas e ecológicas não encontrariam eco por ali. O parto natural, por exemplo, era abominado pelos médicos locais e olhado com desconfiança pelas parturientes. Queriam anestesia e cesariana, fugindo dos instintos e das dores, exatamente como fazem as mulheres urbanas. Antibióticos eram usados segundo leis incompreensíveis, e funcionavam! Muitas vezes precisava parar para traduzir uma sentença, uma expressão qualquer, de gente que falava minha própria língua. Ri muito, sim, como ri. E chorei também. Conheci pessoas morrendo de sede e fome à beira do lago, crianças às quais não pude ajudar, cega que se recusava a enxergar para não perder a única fonte de carinho disponível. A catarata era um vaticínio inevitável, a mortalidade infantil não assustava – os filhos sempre renascem para a vida eterna. Vi casos de Tétano, perdi um rapaz com Cólera porque simplesmente não consegui soro em quantidade suficiente para reposição; a loucura ainda é tratada em celas com grades e “lençóis de força”. Um sujeito levou uma machadada na cabeça que a abriu ao meio, deixando exposto o cérebro sujo de areia. Fiz o que pude e rezei por sua alma. Uma semana mais tarde ele recebia alta da clínica, com um olho a menos é verdade, mas caminhando com as próprias pernas. Em outro canto de mundo e teria morrido. Onde mais eu poderia ter remendado os bagos de um menino mordido por um jumento?
Descobri que a pouco mais de 700 km da minha Soterópolis havia outro mundo, habitado por gente muito diferente e sonhos comuns. Confirmei um Brasil grande e diverso. A juventude, festeira, se reunia todas as noites na praça e o calor do interminável verão só era amenizado com esteiras estendidas sobre o chão batido das casas. Nada tinha mais valor que sombra e cerveja gelada. Crianças cresciam sem ver o mar, embora, sob vários aspectos, o lago se fingisse de mar. A diferença é que só dava peixes de água doce. Na estiagem, quando o nível da água baixava, a população apontava a torre da igreja submersa. Até o velho cemitério teve que ser relocado, mas não tenho notícia de seus moradores. E as memórias traziam saudades e lágrimas. Eram frestas por onde eu via que aquelas pessoas, afinal, não passavam de gente como eu.
Marcio Leite

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