Para uma boa leitura Dr. Marcio Leite escreve: Remadas!

Vejo que o mundo ainda dorme, mas já estou na praia da Preguiça, mirando as águas mansas da Baía de Todos os Santos. Sempre achei que essa baía merecia um nome menor, mais prático. Por que todos os santos? Não podia ser um santo só? Enfim, coisa de portugueses… Bem, mais um dia de remada. Capitão Paolilo, primo-irmáo do Capitão Gancho, assume outra embarcação e designa Vinicius, mestre remador lá das bandas de Itacaré, rebaixado a imediato, para assumir a nossa canoa havaiana. Sinto no corpo o nome da praia. Que nome mais adequado aquele, pensei comigo, Deve ser para combinar com o nome da baía, pesado, com todos aqueles santos. Lá vamos nós!
Aquecimento rápido, iniciamos as remadas sincronizadas, rítmicas, sonolentas, pelo menos as minhas. “Hip”, ecoa um grito cheio de testosterona. Putz! A essa hora da manhã e já tem gente com tanto entusiasmo! Vamos adiante. Mestre Vinicius vai cantando as remadas, orientando a galera, quer todo mundo no mesmo movimento se não a canoa cisma, não desliza. Passamos o quebra-mar, a Gamboa de Baixo com seus pitorescos moradores, gente simples que já está no mar garantindo o almoço. Casinhas humildes, roupas coloridas estendidas ao sol. Em seguida o Solar do Unhão, remansos, vou devassando a intimidade dessa cidade encantada. Passamos pelo fundo dos edifícios elegantes da Vitória, percebo os funiculares em movimento, já tão cedo. Gente que desce para um banho no oceano antes de pegar no batente. Gente que agradece viver num lugar onde outros pagam caro para passar as férias. Vou deslizando nas águas calmas, contemplativo, sonâmbulo, alheio aos comandos, aos gritos. Cercando a baía, vejo a costa da ilha de Itaparica, a pirâmide da Eubiose, em Mar Grande, apontando para o céu, como a chamar atenção para algo transcendental. Perco a noção do tempo, acho que o líder também. Passa a Casa Amarela, o Iate Clube. O cansaço me invade e a canoa não para. Tive a impressão de avistar a costa da África. Nossa! Remamos tanto assim? Não. Apenas eu, em delírio e sono, colocando em funcionamento os músculos emperrados, lubrificando as juntas, ouvindo gritos ao pé do ouvido, me batizando com água e sal às seis da manhã.
Saravá, minha mãe, Iemanjá!
Marcio Leite

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