SÉRIE: Figuras de destaque de MORRO DO CHAPÉU de outrora Referência à memória de pessoas simples e humildes BENIGNO DE DANIEL, o cavaleiro zangado. Por Octaviano Gonçalves!

BENIGNO DE DANIEL, o cavaleiro zangado
Essa pessoa não era muito conhecida das por aqueles que moravam na cidade, vez que a sua família trabalhava na Fazenda Barro (Cercado) de Jubilino Cunegundes, chefe político que mandava e desmandava no município.
Recordo bem que a sua mãe, cujo nome era Damiana, no dia 6 de agosto realizava uma festa religiosa e as famílias de toda a região da Fazenda Palmeira iam para esse ato religioso, vez que além da reza também tinha o lado profano com samba e muita bebedeira. Lembro ainda, que no entorno da casa da festa, algumas pessoas vendiam bebidas e guloseimas como doces caseiros, bolos, biscoitos, balas e, inclusive, chicletes. E uma passagem que nunca esqueci, foi que o meu primo Otávio vendia esses produtos e o meu pai, para agradar à meninada, comprou caixinhas de chicletes e pela primeira vez eu saboreei esse tipo de goma de mascar.
Benigo, assim que ele era o chamado, de fato era uma criatura presepeira e folclórica. Lembro que certa vez uma vaca do meu pai passou para a propriedade do seu patrão. Diante dessa ocorrência, ele passou na estrada perto da nossa casa e a sua aproximação foi notada quando ele passou por uma cancela que ao bater com força no mourão deu o sinal de estar vindo um transeunte. E logo ele passou em disparada em direção à cidade, açoitando o seu cavalo e gritando espalhafatosamente que ia comunicar o ocorrido ao Seu Jubilino, dizendo que ele ia mandar prender o meu pai.
Quando ia à feira na cidade, depois de ingerir algumas doses de cachaça, ele montava no pequeno cavalo e saia fazendo papagaiada pela rua. Aí então, a rapaziada que gostava de provocá-lo, passava a gritar “Benigo, o rabicho caiu” e ele dava meia-volta para exigir satisfação aos jovens pirracentos. Ante essas cenas, dava-se uma grande algazarra nas proximidades da feira, mas, sem nenhuma consequência, somente risadaria e gritaria dos presentes e latitudes de arrelias com a sua saída do local.
Naquela época, a praça onde fica o Colégio Nossa Senhora da Graça, era um grande largo totalmente limpo sem nenhuma construção, onde nem bancos tinha para sentar. E até bater a sineta para o início das aulas, aquele grande largo ficava repleto de estudantes sentados nos meio-fios e espalhados por toda a sua extensão. E num sábado, dia da feira, nesse ambiente repleto de jovens afeitos a provocar algumas pessoas que passavam pela praça, ousou-se ele a passar por ali montando o seu cavalo e fazendo as suas costumeiras gaiatices. E essa sua ousadia foi a medida certa para serem ouvidas vozes uníssonas gritando “Benigo, o rabicho caiu”, fazendo-o voltar como se fosse para brigar. Mas, ele apenas proferia alguns despautérios, gritava xingamentos e depois ia embora.
Eu, quando estava entre os estudantes nesse contexto, a bem da verdade, não gostava daquilo que os meus colegas faziam com ele. Isso porque, eu o conhecia e à sua família que trabalhavam numa propriedade vizinha à nossa, lá pelos lados do meu torrão natal, a Palmeira.
A meu ver, ele foi uma pessoa simples e humilde que deixou suas marcas na memória dos moradores da nossa cidade, por isso, essa referência à sua pessoa nessa série.
Salvador, 06 de agosto de 2021
Octaviano Gonçalves de Oliveira
Morrense

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