Lauro Adolfo Escreve: A valorização da história local. Diferenças culturais entre Morro do Chapéu e Irecê!

A valorização da história local. Diferenças culturais entre Morro do Chapéu e Irecê

Há alguns anos atrás foi publicado um livro sobre Irecê, onde supostamente iria esclarecer definitivamente os pontos obscuros sobre sua história. Dentre eles a “verdadeira” data de sua emancipação. Um tio, irmão de minha, mãe havia adquirido o livro e ao lê-lo caiu na gargalhada sobre fatos hilários ali publicados. Isso chamou minha atenção e resolvi dar uma lida no livro para descobrir o que havia tão engraçado no mesmo. E havia não só fatos que provocavam o riso, como também outros que causavam espanto e indignação. Nunca se viu tantos absurdos, tantas patacoadas, tantas manipulações e erros históricos cujo único propósito era causar impacto com seu ineditismo amadorístico. E principalmente, tirar da família Dourado seu protagonismo no povoamento da fazenda Lagoa Grande comprada pelo ancestral João José da Silva Dourado.

Jubilino Cunegundes de Morro do Chapéu, já havia publicado um pequeno volume sobre a história do município. Ao comparar os dois livros, percebi muitas contradições entre os dois historiadores sobre a efetiva data de emancipação de Irecê. Isso me levou a pesquisar o Correio do Sertão sobre esse período tão crucial sobre a história das duas cidades. E vi então o erro monumental quando o prefeito Beto Lelis estabeleceu a data de restauração do município de Irecê como a da emancipação. Afinal o livro que a prefeitura havia financiado, dava essa data como a correta, então ele nada mais fez que seguir essa orientação. Indignado, dei início a uma campanha para a adoção da verdadeira data de emancipação do município. Isso me levou a ser entrevistado na rádio Regional AM e posteriormente na Caraíbas FM. E fui obtendo apoio de amigos como Adelio, Eduardo Lopes, Roberio, Adelmo , Kel, todos da família Dourado e muitos outros, engrossando as fileiras da defesa da data correta da emancipação de Irecê. Até que surgiu o dr. Hermenito Dourado, jurista e medalhão da família Dourado, e as emissoras de rádio citadas descartou o historiador sem títulos, substituindo-o pelo grande jurista que já fora deputado distrital em Brasília, atestando que a elite sempre ocupa os espaços onde o pobre tenta se sobressair.

Depois de algum tempo, o dr. Hermenito sofre um acidente de carro quando viajava de Brasília a Irecê e a rádio Caraíbas ficou sem a sua principal atração sobre a narrativa histórica do município. Quando procurei ocupar o espaço vazio, o locutor disse que eu nada mais tinha a dizer sobre o assunto, vez que dr. Hermenito já havia esclarecido tudo sobre o tema. Todavia, muitos fatos novos foram surgindo ao longo do tempo. Alguns abnegados pesquisadores, fizeram buscas nos cartórios de Rio de Contas, Macaúbas e Caetité, locais onde a família Dourado primeiro estabeleceu residências, e lá descobriram muitos documentos inéditos sobre a história da família. Nem dei trela as emissoras de rádios ireceenses que gostam de adular e dar prestígio aos medalhões.

Mas antes disso, o poeta e cordelista Americano, que fazia seu programa de músicas saudosistas na rádio Caraíbas, me convidou para narrar os fatos históricos sobre Irecê. E comecei sobre o município de Lapão. Tudo ia bem, até que o diretor da rádio que nem sei nem quero saber o nome (não era o Ângelo Dourado), chamou a atenção de Americano sobre minha participação no programa. Quando Americano disse que eu era seu convidado, o diretor deu xilique e imediatamente desautorizou minha participação. Alguém havia comunicado alguma coisa a ele? Não?  História de Irecê? Quem diabos liga? E fim de papo. Pouco tempo depois Ângelo Dourado assume a direção da emissora e Americano foi descartado. Não por minha causa, é bom esclarecer.

Morando posteriormente em Morro do Chapéu e fazendo incessantes pesquisas, sempre gostei de levar ao conhecimento do público minhas descobertas históricas sobre o município, particularmente no facebook onde mantenho um perfil sobre o assunto. De tanto falar sobre isso, recebi o convite do amigo Filinto Emanuel que fazia um programa na rádio Diamantina, para falar sobre a história de Morro do Chapéu. Lá fui bem acolhido. Desta vez não houve diretor da emissora dando xiliques. Minhas narrativas causaram ampla repercussão, sendo abordado nas ruas pelos ouvintes do programa, os quais faziam questão de transmitir seu interesse e entusiasmo pelos fatos inéditos os quais tomavam conhecimento. Pouco depois Filinto foi trabalhar na rádio Brilhante e fiquei sem meu interlocutor. Meu afastamento durou pouco, pois o próprio diretor da rádio, Glauber Gomes, me fez o convite para voltar a fazer meus comentários na emissora. Foi uma grata surpresa, vez que imaginei que diretor de rádio só se interessa pelo faturamento, como é praxe nas emissoras de rádio de Irecê. E logo depois recebo outra grata surpresa ao ser abordado pela prefeita recém eleita de Morro do Chapéu, Juliana Araújo onde ela demonstrando seu entusiasmo pela história do município e querendo que ampla camada da população, incluindo os alunos das escolas públicas do município, tomem conhecimento sobre o tema, me fez o convite para dar continuidade nas minhas narrativas, agora na rádio Brilhante FM, especificamente no programa de Filinto Emanuel. E me garantiu que meu livro sobre a história de Morro do Chapéu que estou dando os toques finais, será publicado sob os auspícios da Assembleia Legislativa da Bahia.

Eis aí a diferença cultural entre Irecê e Morro do Chapéu.

Irecê é uma cidade de vocação empresarial desde os seus primórdios. A cidade respira empreendedorismo, onde todos buscam ganhar dinheiro em qualquer atividade comercial. A cultura fica ao largo, não obstante contar com alguns artistas na área de pintura, notadamente o empresário Karneiro com suas pinturas rurais. A cidade já teve vários jornais, já desativados. Tem uma academia de letras que nunca mais se ouviu falar. Morro do Chapéu tem intensa atividade nas artes. Contam com duas filarmônicas, pintores, escultores, compositores, bandas de música como Luau da Selva/Selva Branca e Silas do Trompete. E nos bons tempos da Jovem Guarda foi a primeira cidade da região a ter uma banda de rock chamada Os Paqueras. Morro do Chapéu tem, portanto, uma longa  tradição musical que remonta ao início do século XX e que já revelou muitos músicos de renome. Ser convidado por um diretor de emissora de rádio para fazer um pequeno programa contando a história local, a exemplo de Morro do Chapéu, jamais aconteceu nem acontecerá em Irecê.

Não obstante isso, Elmo Vaz, prefeito de Irecê, foi o único em toda região a apresentar uma proposta enviada a Câmara de Vereadores e aprovada por unanimidade, reconhecendo a data correta da emancipação de Irecê, coroando com êxito a nossa luta.

Agora vamos a outra luta: o reconhecimento da data correta da emancipação de Morro do Chapéu. Uma luta difícil, vez que não encontramos aqui a mesma disposição, o mesmo engajamento dos ireceenses em fazer reconhecer os fatos verdadeiros da história do município. Tenho esperança, contudo que a nossa prefeita tenha a mesma iniciativa e decida apresentar uma proposta a Câmara de Vereadores, para a aprovação da data de 7 de maio de 1864 como a data efetiva da emancipação de Morro do Chapéu. Ou a data de sua instalação em 6 de novembro de 1865. Coragem para isso ela tem de sobra. E apoio da Câmara também, é bom ressaltar.

 

Deixe um comentário