O Coronel Dias Coelho e o culto a sua personalidade (o tombamento do Parque Soledade)

O coronel Dias Coelho e o culto a sua personalidade (o tombamento do Parque Soledade)

Após ser divulgado que o terreno em frente à casa que pertenceu ao coronel Dias Coelho foi loteado, começou um movimento para declarar a área patrimônio histórico colhendo-se assinaturas para forçar seu tombamento. Depois de 110 anos de construída, a casa chamou agora a atenção para sua preservação, o que é uma redundância vez que ela nunca foi alterada em sua arquitetura e não tem atrativo turístico vez que lá dentro não tem nenhum móvel ou objeto que lembre seu antigo proprietário.  Uma casa que foi muito pouco utilizada vez que não se adequa hoje nem como moradia nem como de utilidade comercial. Por isso foram construídos alguns prédios anexos que foram alugados a CPRM, empresa ligada ao governo estadual. A pequena capela ao lado que abriga os restos mortais de Dias Coelho, seu filho e sua esposa e que atrai turistas devido a imagem de Nsa. Sra da Soledade não faz parte do patrimônio que leva o nome da santa.

Pode-se perguntar então quais itens compõem o Parque Soledade. Só a casa ou a mesma juntamente com o terreno em volta? Os vendedores não pretendem mexer na casa, somente lotear o terreno em frente. Um terreno pode ser declarado patrimônio histórico? É o que se pergunta.

Na verdade, existem muitos casarões antigos que poderiam também ser declarados como patrimônio histórico e pedir seus tombamentos. Há o conjunto de casas pertencente a família Gomes. Há outro conjunto de casas onde residiu o coronel Benta, a casa ao lado onde mora Dantinhas e a casa que pertence à viúva de Tolentino. Há ainda aquele casarão que fica na esquina entre a avenida Dias Coelho e rua Coronel Souza Benta onde fica o casario acima citado. Há outro casarão no fim da rua Nicolau Grassi e que já sofreu algumas alterações em sua arquitetura. Nenhum desses foi pedido a preservação e seu tombamento. Só a casa de Dias Coelho.

Na verdade, esse movimento é a culminância ao culto da personalidade de Dias Coelho, ação que se iniciou a partir de momento de sua morte, tendo Honório de Souza Pereira, proprietário do Correio do Sertão, como seu maior divulgador. Por anos a fio, em todo mês de fevereiro, o Correio do Sertão publicava uma extensa reportagem detalhando os feitos magnânimos do coronel que em vida, se esmerou justamente para tornar-se um mito na história de Morro do Chapéu. Publicava-se panegíricos louvaminhas de autoria de Joel Paraguassu, Eurycles Pereira, Desouza Dantas, e, com o falecimento de Honório, seu filho Adalberto deu continuidade ao culto do mitológico coronel. Sempre lembrado, ao contrário do que dizem seus biógrafos, Dias Coelho batizou nome de prédio escolar, avenida e ruas, culminando com nome de distrito onde era o povoado de Brejinho. Única personagem local a merecer tal honraria. Até que apareceu alguns jovens que consideraram as homenagens insuficientes, conseguindo a colocação de um busto na entrada do teatro Odilon da Silveira Costa e uma estátua na área central da avenida que leva também seu nome. Falta o quê? O tombamento da casa onde morou durante nove anos. Uma casa que foi logo vendida pela viúva, cujo valor era de cinco contos de réis. E tinha também o alambique cuja existência era ignorada até poucos dias, avaliado em três contos de réis. Foram oito contos de réis que deram sustentação a viúva nos anos subsequentes. Se é que foram vendidos a esse preço.

Resta saber quem vai abraçar essa causa. O Parque Soledade é de propriedade de Edigar Dourado Lima e o agente imobiliário é Jaiminho, prevendo-se muita discussão e ações judiciais. Considerando que o município necessita de ações mais urgentes em áreas cruciais, comprar briga por causa de um loteamento de área de cunho histórico só para os interessados. Que juntem os documentos necessários, vençam a peleja nos tribunais se for o caso, depois peçam o aval da autoridade competente. Se for para o coronel continuar em paz em seu berço eterno, que assim seja feito.

Deixe uma resposta