Falta emprego e sobra racismo, diz jovem que procura trabalho em M. do Chapéu!

Sem acesso a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e sem oportunidades de trabalho, Isabela encara um sério problema na busca por um bom emprego no comércio de Morro do Chapéu: a discriminação racial.

Por Nathan Rocha

Isabela dos Santos não vende acarajé desde quando começou a quarentena em Morro do Chapéu, dessa forma, a reportagem ficou impossibilitada de fazer o registro fotográfico no local de trabalho dela/Imagem: Arquivo pessoal

De antemão, é importante lembrar que o Brasil fechou o ano de 2019 com 38,363 milhões de trabalhadores informais. E quando se trata de desemprego, os dados revelam que a população negra não é maioria só entre os brasileiros, com 55,8% da população nacional. Neste sentido, negros e negras também são maioria entre desocupados, com 63,7% da população, de acordo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Diante desse cenário, a Sala do Empreendedor de Morro do Chapéu, afirma que, de forma presencial no ponto de apoio, entre o mês de abril a outubro de 2019, 46 trabalhadores, por conta própria, buscaram novas formas de conseguir uma renda mínima. Isabela dos Santos Araújo, 29 anos, vendedora de acarajé, também é trabalhadora informal, porém, não faz parte desse dado fornecido pela Sala do Empreendedor. Ela não tem o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), portanto, não é uma Microempreendedora Individual (MEI).

Imagem meramente ilustrativa/Arquivo Repare Quilombo

 

Sem acesso a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e sem oportunidades de trabalho, Isabela encara um sério problema na busca por um bom emprego no comércio de Morro do Chapéu: a discriminação racial. “Já sofri discriminação sim, pois, ‘você se sente tão mal ao entrar em um comércio e a pessoa lhe olhar dos pés à cabeça e comentar com outras pessoas e você perceber aquilo’, aí deixa a pessoa lá em baixo”, conta Isabela, que concluiu o Ensino Médio Normal (antigo magistério), em 2013. Dois anos depois, ela teve a primeira experiência de trabalho com carteira assinada na cidade de “São José do Rio Preto (SP), em uma padaria, como balconista”, lembra.

De volta a sua cidade natal, ela até tentou, mas nunca conseguiu um emprego formal. “Nossa… Entreguei currículo em muitas [escolas/empresas] e nenhuma tive resposta. Teve uma sapataria que entreguei na mão do dono: ‘você sabendo que tava precisando de funcionários’, simplesmente, só recebeu e colocou lá, outras lojas e mercado, entreguei na mão dos gerentes, também não tive resposta, daí chega um momento que ‘você se chateia e não leva mais’ porque com alguns dias ‘você passa em frente e ver funcionários novos’, aí fica a pergunta no ar: ‘por que não me chamaram nem pra uma entrevista? ’, porque no fundo, eu sei o porquê”, lamenta a jovem vendedora de acarajé.

Aliás, vender acarajé é a única opção de trabalho que Isabela tem para conseguir colocar o que comer na mesa e sustentar a sua filha de apenas sete meses de idade. A renda mínima de Isabela varia de 300 a R$ 350,00 por mês. Ela diz que depende também do movimento da rua, porque “tem dias que a rua tá boa, tem dias que o movimento é menos”, explica.

“Aprendi fazer acarajé com a minha mãe, sempre ia com ela pra praça e aprendi como fazer e a trabalhar”, recorda. Isabela conta também que já foi beneficiária do Programa Bolsa Família, porém, o benefício foi “cortado” em março de 2020. Período este que a reportagem entrou em contato com ela, pela primeira vez, para fazer esta entrevista.

Centro comercial de Morro do Chapéu, Av. Joel Modesto/Imagem: Nathan Rocha

“Esperamos né, que possa mudar; que possam surgir novas oportunidades e colocar mais pessoas negras no mercado de trabalho”

Morando num “cantinho” doado pela mãe, Isabela agradece pelo fato de ter seu próprio cômodo para não precisar pagar aluguel “nessa crise que estamos passando”, ressalta. Diante dessa situação, Isabela critica as poucas oportunidades de emprego em Morro do Chapéu. “A realidade da nossa cidade é um caso sério, eles querem pagar o mínimo, sem contar que muitas vezes não dá oportunidade. Muitos só precisam de uma chance e não têm. Eu mesma, até hoje, não tive”, lamenta.

A realidade da morrense Camila Alves de Jesus, 30 anos, não é tão diferente das dificuldades vividas por Isabela, quando o assunto é a falta de emprego. Desempregada há cinco anos, Camila concluiu o ensino médio em 2011, e, desde então, nunca teve a sua carteira de trabalho assinada.

Camila conta que já entregou currículo em várias lojas do comércio local, porém, nunca teve resposta. Ela acredita que a discriminação racial pode sim ser um fator decisivo na hora da contratação, entretanto, ela explica. “Não passei por isso, não que eu perceba, mas existe”, diz Camila. Ainda em relação a uma boa contratação, tanto no setor público ou privado de Morro do Chapéu, Camila chama atenção para a boa influência que as pessoas precisariam ter. “Se tiver indicação é mais fácil”, afirma.

Perguntada se pensa em mudar de cidade para conseguir melhores condições de trabalho ou até mesmo de estudos, Camila hesita. “Se eu não tivesse uma filha, sim, já teria ido embora daqui”, explica. A filha dela tem seis anos de idade, e ambas moram na casa da mãe de Camila, na sede do município.

A única renda fixa de Camila vem do Programa Bolsa Família. Ela informou a reportagem o valor recebido, porém, preferiu que o Repare Quilombo não publicasse a quantia. “Melhor não falar”, pediu.(raparequilombo.com)

Deixe uma resposta