Para uma boa leitura Dr. Marcio Leite escreve: As Mulheres do Meu Tempo!

As mulheres do meu tempo

Eram belas as mulheres do meu tempo. Olhares de soslaio e maneiras fidalgas. Palavras contidas e modos ainda mais. Esperavam, num misto de timidez e desejo.
Descreviam a cena, o mundo inteiro com um simples olhar, num relance. Musas de pincéis imaginários em telas grandiosas. Sabiam reconhecer e tolerar, atitudes hoje esquecidas.
Guardavam segredos, devotavam-se aos seus amores. Não negociavam, não traíam, sobretudo, não desistiam. 
Maravilhosas mulheres de um tempo que passou, assim como eu passei, mas não sem percebê-las em sua magnitude. Não sem admirá-las, sem flagrá-las em atitudes sublimes. Estiveram presentes em meus devaneios adolescentes.
Havia a mais bela, a mais elegante, a mais afoita, a de olhar mais profundo, a de pernas mais torneadas. Tão bonitas quanto inteligentes. Tão meigas quanto voluntariosas. Sim, havia o desejo, como não? Como proteger os jovens dos influxos hormonais? Como evitar que, a partir disso, vislumbrem o Paraíso? Elas eram a mais pura representação do divino em terras devastadas. Princesas do Sol em plena materialidade mundana. Lindas e perversas quando inalcançáveis. Delírios.
Mudou o mundo – mudei também – em obediência à força das leis que não conseguimos mudar. Hoje, ainda belas, mas travestidas de uma masculinidade incompreensível aos olhos antigos de um sujeito para sempre apaixonado.
Emanciparam-se, chegaram-se. Também nos aspectos negativos, outrora apenas dos homens. Em busca de igualdade num mundo torto. Renderam-se.
Sei que vão falar deste texto, que vão considera-lo machista, debochado. Sim, pelo viés da descrença, talvez. Considero-o poético, saudosista. Não falarei das mulheres de hoje, elas o fazem por si mesmas; tenho-as em minha vida na figura de filhas e sobrinhas. Falo das incríveis mulheres de ontem, do corajoso anonimato. De seus inolvidáveis papéis. Falo do religioso silêncio que lhes caracterizou a alma. Por favor, deixem-me sentir saudade – palavra única — das mulheres do meu tempo. Incomparáveis.

Marcio Leite

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