Morrense Naum Costa, que viajou pela América de moto, faz resumo da viajem!

Poderia ter escolhido qualquer uma das fotos que tirei durante a viagem para finalizar com essa postagem. Mas esta é a mais especial de todas. E já explico no final.

Atravessei todos os 1.700km da transamazônica. Da Paraíba ao Acre. Conheci um Brasil que só se vendo. Aquela gente e sua rotina não se escreve. Não se pode registrar. Só conhecendo e sentindo…

Um lugar onde a rotina é maior que qualquer outra coisa. Não se discute política nem o Estado se faz presente. Terra onde todos se ajudam. A solidariedade é regra de sobrevivência. Um carro quebrado é uma senha para uma parada, 2 min de conversa. Um menino doente faz aparecer unguento de todos os conhecidos e desconhecidos perambulantes. Tomei banho na porta que batia. Dormi na casa de qualquer um. Ninguém negava. Percebi que um motociclista viajando é digno de pena. Parece que somos jurados de morte. Uma espada sobre a cabeça. Todos nos olham com piedade. Logo aprendi a me aproveitar disso.

A chegada de um visitante curioso é tudo que alguns precisam para abrir um baú de histórias infinitas: o diamante que o Sr. Fulano encontrou no garimpo tal… (e olha que sempre avisei que ali tinha pedras grandes)… o cachorro da Sra. Ciclana que foi comido pela onça há duas semanas. Madrugadas eram pequenas para tanta coisa a ser contada. Meus olhos nem piscavam. Me dei conta de como a minha via é totalmente morna. Procuramos ficar quietos. Escondidos na comodidade de nossos empregos e rotinas. A lei da floresta é achar hoje o não encontrado ontem. Mudar é a regra. Aqui não está bom, pega os meninos e cachorro e amanhã começarmos do zero. Lá as meninas ainda fogem para se casar escondido. Índias prometidas desaparecem com algum forasteiro. Topei com um Arauaki de uns 15 anos com um cabelo de Luan Santana e uma espingarda calibre 12 nas mãos. Andava sem pressa nenhuma na estrada. Perguntei se podia tirar uma foto e ele me mostrou aquele dedo médio (expressão mau educada de vá tomar no…). Mas a foto do índio desaforado eu tirei. kkk.

No dia que cheguei em Porto Velho, já pegando o pretão (como os índios chamam a estrada de asfalto). O alívio se contradisse a um sentimento de saudade. Como se nunca mais fosse vivenciar aquela parábola. Dias inesquecíveis na Amazônia. Não existem palavras para descrever.

Passei por lugares incríveis. No Peru experimentei a melhor comida que se pode provar. Qualquer frango com batatas vendido nas ruas é diferente do que se encontra em outro lado. Povo civilizado, bem humorado, turismo organizado e preços justos. Com certeza irei voltar.

Na Bolívia uma cultura rica e um país triste. Oprimido pelas fotos do Sr. Morales na entrada das vilas e restaurantes, programas de rádio com a fala do presidente ecoam nas ruas. Um sentimento de retrocesso no ar. Atravessei de ponta a ponta um país de estradas em péssimas condições e cidades abandonadas a sua sorte. La Paz, Cochabamba, Sucre, Oruro, Santa Cruz de La Sierra…. cada uma tem algo a dizer, para quem se interessa em procurar. A desconfiança do povo pode ser superada pela vontade de aprender mais sobre um povo pré-inca e seu passado. Assim como no Peru, a violência da colonização espanhola é evidente e está impressa no DNA.

O Chile é lindo. Organizado como um país europeu (e caro da mesma forma) tem lá suas escorregadelas latinas. Povo instruído e frio, igualmente. Turismo para família, casais. San Pedro foi dentro das expectativas. A natureza é o maior espetáculo. Muitos turistas brasileiros….

Argentina, como sempre, se esforça mas sempre nos irrita em algum momento. Cidades bonitas, limpas mas o atendimento e a hospitalidade…..Jujuy, Salta e Catamarca foram boas surpresas.

Paraguai superou as expectativas. Crescendo a 5% ao ano tem sinais claros de desenvolvimento recente. Estradas boas, grandes indústrias (muitas brasileiras). Um país que vem sendo engolido pelos empresários patrícios, restaurantes, redes de lojas verde-amarelo.

Durante essas três semanas comi e dormi nos lugares mais suspeitos nas dezenas de localidades onde pernoitei. Tentando fugir de qualquer clichê procurei as pousadas dos centros das cidades, habitações compartilhadas, casas que alugavam quartos nos povoados. Lugares onde encontrei famílias de venezuelanos fugitivos da miséria, trabalhadores da construção a espera do final de semana para reencontrar a família, despejados do sistema habitacional que esperavam algum auxílio do governo. Os brasileiros que encontrei me chamavam de maluco, irresponsável, sovina. Tínhamos propósitos diferentes.

A regra do café da manhã era procurar comer junto aos os detentores das novidades, conhecimento e cultura do lugar: os taxistas. Assim como em qualquer lugar do mundo, são como enciclopédia ambulante que se atualiza a cada dia. Ficava como criança bem instruída a ouvir as discussões, debates, reclamações. Não me pronunciava e tentava passar despercebido. Todos os dias um ponto de táxi diferente.

O almoço sempre na rodoviária ou mercado. Me sentava e admirava as avuelas gordas e desdentadas falar dos filhos, do preço do açúcar e novelas.

A noite sempre uma bodega diferente para um café com velhos solitários e jovens desalentados pelo desemprego. Gente que só quer passar o tempo sem ser incomodada. Me sentia um deles.

Mas vamos voltar para a foto…

No dia mais difícil de toda viagem, estava eu indo de Marangani a Ayarviri (Peru) a uma temperatura de -4°C. Era 19:50 e não encontrava nenhuma porta para pedir algo quente para beber. Passei por quatro ou cinco pueblos e nada. Todos se escondiam do frio e eu, arrependido de ter nascido, em cima da moto.

Perto do destino, vi uma luz saindo de um comércio. Parei meio que em desespero e encontrei uma senhora no balcão com a filha pequena. Permisso, puedo tomar un café? Olhei para o lado e vi um Senhor e dois rapazes na mesa da direita. Apesar de ter outras disponíveis, logo perguntei se podia me sentar com eles e esperei meu café.

Comecei a conversar com os jovens e pedi um saco de pão a dona do estabelecimento (é comum terem sacos já prontos com certa quantidade de pães). Começamos a comer, tomar o café e logo me contaram que eram irmãos e aquele velho seu pai. Depois de mostrar fotos dos meus filhos e falar um pouco da minha vida, como estratégia ordinária para puxar uma conversa mais informal, o pai resolveu participar da prosa. Me falou de como ficou viúvo e da criação dos meninos. Da dificuldade na doença ou quando quiseram parar de estudar. Conversamos noite a dentro. Observava os olhares dos filhos quando o pai contava as histórias de quando ainda eram pequenos. Às vezes riam… outras se emocionavam.

Já eram 23h… decidimos terminar por alí. Já não havia pão ou café. A dona do lugar devia está fazendo alguma coisa na cozinha ou ter cochilado. Há tempos não dava as caras no balcão.
Dei um abraço no Sr. Alberto de despedida e os filhos riram. Percebi que, talvez, ele nunca tenha abraçado um homem até aquele dia. Retribuiu sem graça e sério.

Cada um seguiu seu rumo. O frio e a solidão da estrada já não incomodavam. A saudade dos meus filhos escorreu como gelo no rosto durante os primeiros quilômetros. Depois só pensava no destino e fazia as contas dos quilômetros que faltavam.

Agradeço ao Sr. Alberto por ter me lembrado que o melhor da vida são as pessoas, pão e um café que quente. E para isso não precisamos ir longe.. Muitas vezes sequer sair da nossa rua.

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