Para uma boa leitura Dr. Marcio Leite escreve: A Garrafada!

Na estrada entre Rio de Contas e Abaíra, paro num posto para tomar o delicioso café da região. Tarde mormacenta, movimento zero. O senhor falante que explora o restaurante vazio, responde com interesse as minhas perguntas com relação aos negócios. “O movimento aqui é assim, quase nada, mas tá bom! Pra que mais? Tenho esposa, três filhas maravilhosas, a mais velha foi estudar medicina em Guanambi. Do que mais preciso?”. Sabedoria de gente simples. Então, sem desconfiar que sou médico, desata a falar de uma garrafada que prepara com treze gotas de uma planta que nem nome tem. “O sujeito que me ensinou, natural do Paraná, nem ele sabia”. Ele a chama de Curatudo. “Corto o talo, deixo pingar 13 gotas da seiva; não pode ser 14 nem 12, tem que ser 13! Deixo em infusão durante 24 horas num litro d’água fervida, aí começa a tomar meio copo sete da manhã e meio copo sete da noite; a garrafa dá para uns seis dias”. “O senhor tome com fé, é cura certa”, recomenda. Tenho a mente bastante aberta, acredito na sabedoria popular, mas, neste caso, penso se o que cura é a poção mágica ou a fé do sujeito. Talvez os dois. “Já curei mais de cem pessoas de diferentes males, mas a ação principal dela é no esôfago. Essa planta já curou até câncer de esôfago, garantido, com diagnóstico de médico”. Poxa! Pode servir para meu refluxo, pensei. “Acho que quero comprar uma garrafada dessas”. “Moço, não adianta usar Omeprazol, isso é remédio de doutor, aqui não vale nada. Eles precisam de pesquisa, comprovar tudo. Isso leva tempo, tem sempre alguém ganhando dinheiro, e não cura ninguém. O que interessa é curar o sujeito, aqui a gente corta caminho”. “Faço de graça”, afirma orgulhoso. E complementa: “Remédio de médico não é feito pra curar, só pra aliviar e tocar o cidadão pra frente. Se o remédio curar tudo, como é que eles ficam? Vão ganhar dinheiro como?” Balancei a cabeça. Fiquei com medo da lógica desconcertante daquele homem simples. Nunca duvidei da cognição inata do povo, de suas experiências práticas. Combato a ignorância, coisas absurdas, mas sempre valorizei outros caminhos sobre os quais a ciência não tem controle. O fato de não se conhecer, não é o mesmo que garantir não funcionamento. Qualquer coisa que se faça com legítima intenção de ajudar, funciona, parcial ou completamente. Entretanto, é preciso cuidado ao se afirmar alguma coisa nesta seara, aí entram preconceitos e interesses comerciais. Na dúvida, encomendei um litro da garrafada.

Marcio Leite

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