Para uma boa leitura Dr. Marcio Leite escreve: 2 de Julho!

2 de julho

A maioria dos brasileiros considera o romântico grito “Independência ou morte”, de Dom Pedro, às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, o marco de nossa libertação dos colonizadores portugueses, entretanto, nós, baianos, sabemos que não foi bem assim. Por quase um ano mais, nas cidades do Recôncavo como Cachoeira, Maragogipe, Santo Amaro e na Ilha de Itaparica, além de Salvador, e também em outras províncias do Império, batalhas sangrentas foram travadas antes que se pudesse considerar o Brasil efetivamente desvinculado de Portugal. A data magna de 2 de julho de 1823 marcou a expulsão inquestionável dos lusitanos de nossas terras. Rebeliões e revoltas são excelentes fabricantes de heróis e mártires, tivemos os nossos: Sóror Joana Angélica, assassinada a baionetas ao impedir que tropas de Portugal invadissem o convento da Lapa; Maria Quitéria, a baiana que pegou em armas e lutou bravamente ao lado dos homens para ver sua terra livre do domínio de outrem. Algumas figuras curiosas deram enorme contribuição, como o almirante inglês Lord Cochrane, e o aventureiro francês Pierre Labatut. Para coroar a história, há o lance inacreditável do corneteiro Lopes, que na crucial batalha de Pirajá, quando os “bahienses”, em inferioridade numérica e de armas, já se davam por vencidos, fez soar o toque de atacar quando havia recebido ordens expressas para o toque de recolher. Essa feliz trapalhada deixou os marotos (portugueses) confusos, imaginando que os bahienses haviam recebido reforços inesperados. Estes então caíram sobre aqueles com sanha redobrada, vencendo uma batalha considerada perdida. Bandeira de Melo bate em retirada e retorna a Lisboa. De novo sacode-se a poeira da História, alinham-se versões, ampliam-se circunstâncias, fatos e desdobramentos. Não esqueçamos, entretanto, que a História, neutra e fluente por natureza, é sempre vítima de quem a conta, retoca e reconta.

Marcio Leite

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