Um pouco da nossa história: Tolentino Guimarães o médico dos pobres!

Na década de 40, não existia médico em Morro do Chapéu, cabendo-me, portanto, a incumbência de atender aos doentes da minha terra (em virtude da minha profissão como Oficial de Farmácia), principalmente à pobreza desamparada. Eram muitos os casos de partos e eu, inúmeras vezes deslocava-me à cavalo, até em noites chuvosas, para atender a chamados diversos. Recordo-me que, certa feita, fui chamado para atender a uma parturiente no local denominado Lagoa da Serra, distante mais ou menos, uma dez léguas da cidade. O portador (irmão da paciente) havia trazido um cavalo para meu transporte e um jumento para ele. Minha mãe, por cuidado, pôs nos alforjes da montaria, dois pães para possível necessidade.
Chagamos ao local à “boca da noite”. A moradia era um casebre sem portas, apenas uns paus roliços em lugar das mesmas. Procurei pelo marido e me informaram que o mesmo, vendo o sofrimento de sua mulher, desvairou-se mata adentro, contígua ao casebre. A mulher, deitada em uma cama de varas, tinha ao seu lado uma velha parteira que não sabia o que fazer a não ser acompanhar de perto o sofrimento desveladamente. Senti, de logo, que estava diante de um caso difícil. A paciente, primípara, sem forças e, além de ter o filho já morto, estava sem urinar. A medicação que tinha em meu poder,logo comecei a usar, mas, infelizmente, nem uma sonda uretral eu tinha. Passei a noite em vigília, aplicando injeções de esparto-cânfora, cafeínas, etc. Lutei até ao meio dia seguinte. No almoço (que foi constituído de feijão puro, sem carne ou verdura), comi ainda os pães que minha mão havia colocado nos alforjes. Ao anoitecer, depois de comer novamente o feijão com pão, dirigi-me ao irmão da paciente e fiz vê-lo que teria de aplicar injeções que poderiam salvar a parturiente ou, então, acelerar o final. Ele respondeu que não precisava mais, pois sabia que o caso não tinha jeito. Pensativo e refletindo comigo mesmo e com a ajuda de Deus, procurei por todos os meios e resolvi aplicar três injeções ao mesmo tempo: uma diurética, uma occitóxica e outra cardiotônica. Logo de imediato, houve uma grande diurese e uma pequena reação uterina, começando o serviço de parto, e com a minha ajuda, saíram o feto e a placenta, já com mau cheiro, denunciando grane infecção puerperal. A parturiente mal podia falar, prostrada naquele humilde girau. Apliquei-lhe esparteína, óleo canforado, lantol e ionase anti-infecciosa. Às oito horas da noite, pedi que mandassem vir o animal para que eu pudesse retornar pois estava tudo sob controle e a parturiente já se sentia aliviada e feliz, não obstante a extrema fraqueza.
Logo chegou o cavalo arreado, despedi-me das pessoas presentes e, sozinho (pois o único homem que podia ir comigo, era o irmão da parturiente e estava a procura do cunhado que ainda não havia aparecido), parti, varando noite à dentro, chegando na cidade às 4:30h da manhã com muito sono e fome. Deixei o cavalo no quintal da casa de meus pais, onde também morava, fui dormir só acordando às 11:00h do dia seguinte. Neste mesmo dia, na farmácia, chegou o Sr. Claudemiro, irmão da parturiente, dando notícias alvissareiras. Mandei mais remédios para a assepsia e sulfa para combater a infecção. Fiquei muito contente em saber do estado da paciente com quem tanto lutei sem elementos necessários e aparelhagem para o caso. O sr.Claudemiro, após receber toda a medicação, pediu-me 2 mil réis para comprar sebo para alimentar a parturiente. Dei-lhe 5 mil réis pois sabia que o que me pedira não era suficiente. Este foi o pagamento do meu trabalho, da minha viagem e dos remédios aplicados. Em compensação, restou-me a satisfação do dever cumprido, da ajuda prestada à pessoas carentes que precisaram de meus préstimos.

Do livro Reminiscências e Inspirações – pág. 15 – Gráfica Velox – 2001.(Colaboração Lauro Adolfo)

Tolentino Olíver Guimarães    

(10.09.1916 – 11.09.2002)

Tolentino nasceu na cidade de Morro do Chapéu, filho de Genésio Tibúrcio Guimarães e Maria da Glória Oliver Guimarães. Cursou até o 30 ano primário, foi balconista de casa comercial, trabalhador manual, garimpeiro e lavrador. Aos 15 anos foi sacristão da paroquia, cujos padres eram Tolentino Celestino da Silva e João Ramos Marinho. Passou a trabalhar como farmacêutico a partir de 1940, quando fez concurso para oficial de farmácia pela Secretaria de Educação e Saúde do Estado, iniciando o exercício da função no mesmo ano, na sua própria farmácia denominada São José, que havia adquirido do farmacêutico Aurelino de Brito. Em 20.08.1940 e em 15.09.1967 foi nomeado Adjunto de Promotor Público.

Nessa época o exercício da sua profissão era muito difícil. Os remédios eram manipulados. As fórmulas eram prescritas pelos médicos, quando passavam por Morro do Chapéu, sendo obrigatoriamente executadas obedecendo a farmacopéia brasileira (livro obrigatório em todas as farmácias). Os formulários, principalmente o do Dr. Heitor Luz, serviam de guia para o bom êxito do trabalho de manipulação.

Não havendo médico em Morro do Chapéu naquela época, Tolentino era procurado pela população carente, a qual atendia com os recursos de que dispunha, como nos casos de curativos, luxações, extrações dentárias, partos naturais e outros casos patológicos. Muitas vezes era necessário viajar a cavalo, às vezes em noites chuvosas, para atender doentes em lugares afastados. Nessa época, uma viagem para Salvador, por exemplo, podia demorar até cinco dias. Inicialmente, de caminhão, que normalmente atolava no Jacarezinho, passando por Várzea Nova e Tombador, até Jacobina, onde se tomava o trem de ferro para Bomfim e daí para Salvador.

Um atendimento de urgência, em especial, marcou profundamente Tolentino (com.verbal):

Teve um caso em Canarana, em que um pai foi pescar e ao lançar o anzol, o mesmo penetrou no rosto de sua filha, onde ficou preso. A população não sabia o que fazer e mandaram para mim. Ao ver o quadro eu disse para o pai: não tenho nenhuma condição de atender sua filha. Não tenho ferros, estiletes, agulhas próprias, nada. Como é que eu vou tirar isso? A inchação estava horrível e o pus escorrendo. Naquele tempo não tinha penicilina. Vou fazer uma carta para um médico em Jacobina e o senhor leva a menina para lá. O pai então disse: nada disso. Ou o senhor faz aqui ou volto para onde vim. Deixei a roça sem queimar e sou obrigado a voltar. Eu disse: rapaz, eu lhe dou o dinheiro, vou fazer uma carta para o doutor Florisvaldo Barberino. O pai disse: não. É desse jeito que eu falei. Desse modo tive que preparar uma mesa que tinha na farmácia, que foi limpa, e chamei dois companheiros para segurar nos braços da menina, fiz uma solução de cocaína, botei no olhinho dela e com um bisturi rústico, fui cortando, cortando e pensei: um olho vou botar a perder, mas pelo menos vou salvar a menina. Quando cheguei adiante encontrei o nervo e o castor do anzol por cima do mesmo. Eu virei o nervo e tirei o anzol. Foi uma alegria para mim quando tirei. Botei colírio e entreguei o frasco ao pai dizendo: coloque o remédio e amanhã você volta aqui com ela para ficar fazendo curativo durante uma semana. Ele disse: não senhor. Eu vou embora é hoje. E arribou. Quando foi um dia, passado uns 10 anos, chegando a Cafarnaum, encontrei o homem, a quem não conhecia mais. Ele chegou, falou comigo e trouxe junto uma moça, já de propósito, e perguntou: conhece essa moça? Não senhor, eu respondi. Conhece sim. Se conheço, não sei quem é.  É a moça de quem o senhor operou do anzol no rosto. Eu disse: minha filha, deixa eu ver. E foi necessário que ela dissesse qual foi o olho, pois nem um sinal ficou. Isso não é interessante?

Casado com Rita Bagano Guimarães, em 12.05.1948, teve sete filhos: Jomarito Bagano Oliveira, casado com Lúcia Maria Souto Guimarães; Renato Oliver Guimarães, casado com              Maria de Lourdes Feitosa Guimarães; Marcos Bagano Guimarães, casado com               Maria Glaciete Rocha Bagano Guimarães; Teresa Maria Bagano Guimarães, casada com Nerenilton Rodrigues da Silva; José Marcelo Bagano Guimarães casado com Ana Cláudia Pires Almeida Bagano Guimarães; Cláudia Maria Bagano Guimarães; Túlio Robério Bagano Guimarães;

Participou da vida política do município, inicialmente pelo PSD e posteriormente pela UDN, partido pelo qual foi por duas vezes candidato a prefeito, disputando as eleições com Genésio Valois e Lourival Cunegundes-Lourito. Foi vereador duas vezes, inclusive vice-presidente da Câmara de Vereadores.

Um acontecimento interessante na vida política de Tolentino (com. verbal), se deu durante um dialogo com o velho Paulo, um velho desses pé-de-boi, muito amigo de Jubilino, e com uma família muito grande. Eu fui atras dele dizer que era candidato e queria o seu voto. Ele disse: o senhor compreenda. Eu sou do PSD e já disse a Jubilino que vou votar com ele.

-Se o senhor prometeu, o que é que eu vou fazer? Eu queria o voto do meu amigo, mas não tenho esse direito.

Ele disse: mais vou dar um jeito. Eu e meu filho mais velho Joaquim, vamos votar com eles e o resto da família eu mando votar no senhor.

-E eu disse: não senhor. Não quero não.

-Não está certo não?

Não. Porque eu prefiro o voto do meu amigo. Imagine se eu entrar na prefeitura e disser: não foi com o voto do meu amigo e por isso não tenho satisfação.

Ele disse: acabou Tolentino. Todos os votos da família são teus agora. Tudo é teu.

E votou sempre comigo e nunca mais votou no PSD.

                Também ocupou vários outros cargos, a exemplo de Delegado Escolar, Adjunto de Promotor (1967) e Vice-Presidente da Sociedade São Vicente de Paulo.

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