Para uma boa leitura Dr. Marcio Leite escreve: A Morte!

Todos estamos morrendo, de um jeito ou de outro, mas faz diferença quando não temos conhecimento do último ato. Vivemos apegados como se o desfecho andasse longe. Como médico, e particularmente, como ser humano, tenho tido a oportunidade de ajudar a muitos que sabem que seu dia está próximo. Com doenças invalidantes, coroadas de muito sofrimento, desejam que a morte os arrebate. Impressionou-me recentemente o sorriso de satisfação de um amigo de infância, em sua urna mortuária. Um sorriso verdadeiro, não maquiado por esteticistas de funerárias. Ninguém pinta sorrisos onde eles não existem. Aquele era autêntico. Tento me convencer que para ele a morte foi uma senhora bondosa, de cabelos brancos, como uma avó querida. Mas há também os que a temem desesperadamente, a maioria. Como sempre, por ignorância.

O fato é que, com o tempo, desenvolvi faro fino para a morte. Posso vê-la arrastando-se soturna pelos corredores, a sombra bruxuleante nas paredes. Sinto o cheiro acre, nauseabundo, o assovio do vento nas vidraças estilhaçadas. Noto o pesar, a se aproximar como nuvem carregada. A tempestade a se armar, relâmpagos distantes. Percebo o olhar sanpaku. Decifro as ditas “alucinações” dos moribundos, que nada mais são, em sua maioria, que os contatos interdimensionais. A ignorância de viventes que jamais param para pensar no óbvio protagoniza situações risíveis. Não entendemos, por isso desrespeitamos. Não sabemos reverenciar a morte como agente educador, destinado ao auxílio de nosso processo evolutivo. Choramos como crianças birrentas forçadas ao abandono de uma interminável brincadeira. Como a dor ou qualquer outra experiência de vida, a morte quer que cresçamos. Depois da infância da consciência há vastos horizontes a descortinar. Ela sabe disso.

Marcio Leite

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