Para uma boa leitura Dr. Marcio Leite escreve: Nordestinos!

Nordestinos

Vez em quando, particularmente em períodos eleitorais ou de exacerbação de ódios mal disfarçados, vem à tona essa cantilena sobre os nordestinos, como se estes fossem subtipos de brasileiros. Quando estava na escola, ensinava-se que o meu estado, a Bahia, ficava na região Leste, junto com MG, RJ e ES. Não fazia parte da minha vivência a fome, a sede ou a falta de livros. Não tinha notícias do semiárido ou dos sertões, lugares que me pareciam distantes, míticos. A Bahia, com história e cultura próprias, em minha franca opinião, apenas tangenciava, pela vizinhança, a realidade nordestina. Talvez algumas regiões do Norte do estado guardem semelhança, mas isso tudo ficava longe da minha imaginação de menino nascido e criado à beira-mar. Quando cresci, entendi que eu precisava conhecer esta região tão depreciada quanto rica em cultura e tradições. E viajei pelo Nordeste, e morei no sertão, e me fascinei com a terra e o povo. Hoje vejo como as pessoas, por medo e ignorância, constroem castelos de ódio e ressentimento por coisas que desconhecem. Como se deixam levar por ideias absurdas, disformes, de coisas ditas inconsequentemente por pretensas autoridades que, com opinião insalubre, outra coisa não fazem senão escamotear suas próprias dificuldades. Quem evolui inclui, quem se atrasa segrega. Nas minhas andanças pela região descobri um povo valente, ordeiro, de fé. O nordestino não reclama, agradece. Não pede, mantem viva a esperança. Não desiste, enfrenta. Não lamenta, acredita. Se as vestes são simples, é porque sua vida é dura. Se as mãos são calejadas, é porque o trabalho é sua rotina. Se lhe falta água e a terra não produz, ele redobra a esperança para o ano seguinte. Se é rude no trato, é porque não teve os requintes da escola. Nas minhas andanças pelo Nordeste descobri a solidariedade, a amizade sem interesses, a labuta sem queixumes. Vi rostos vincados e olhares brilhantes, corpos rijos sem os excessos da urbanidade. Vi gente integrada a uma Natureza voluntariosa; gente capaz de viver com o mínimo e ainda assim cheia de dignidade. Enfim, cheguei à conclusão que nada temos a ensinar ao povo nordestino. Ele é sábio por natureza, lapidado pela vida que não escolheu, mas aceitou como presente de Deus. Tal povo deveria ter o respeito e a mesma proteção legal que têm as populações aborígenes e indígenas. E, sobretudo, deveríamos ter a humildade de aprender com ele. Isso posto, hoje, agradeço aos tecnocratas da educação por terem incluído o meu estado no mapa do Nordeste.

Marcio Leite

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