Para uma boa leitura Dr. Marcio Leite escreve: Crônica de Um Saudosista!

Crônica de um saudosista

Acho que já envelheci o suficiente para criticar modernismos, já me distanciei para apreciá-los com a desconfiança dos antigos. Sou do tempo em que os velhos, tivessem ou não razão, eram donos da verdade. Nós, recém chegados ao mundo, não tínhamos direito a dar palpite. Não havia brinquedos eletrônicos, videogames, computadores e celulares, daí a presença do amigo, do vizinho, da namoradinha, serem indispensáveis. Tudo era feito na companhia do outro, olhos nos olhos, inclusive o amor. Hoje é tão diferente… irmãos conversam pelo WhatsApp; notícias dos amigos, pelo Instagram. Até o Facebook foi abandonado, os jovens migraram porque os pais invadiram essa praia, disse minha filha, uma publicitária de 26 anos, ex-criança. Ainda sinto o colo quente da presença dos meus filhos. Eles partem, fazem ninhos em outros cantos, deixam para trás o passarinho velho que os abrigou. Somos incômodos, é verdade. Pais são considerados anacrônicos, quando na verdade são atemporais. O mundo é outro, impossível não notar. Andei muito de bicicleta, sem joelheiras e sem capacete, assim era bom. Joguei bola, gude e fura-pé. Carrinho de rolimãs. E daí? Os arranhões serviram de lembranças caras de um tempo mágico que se foi. Já não vou mais ao colégio, não brinco em quintais, não subo em árvores. Como imaginar, naquela época, uma criança que não frequentava quintais? Só podia ser um ET. Seria, se os alienígenas fizessem o sucesso que fazem hoje. O máximo que tínhamos, eram amigos imaginários. E pensar que fiz tudo isso com desejo e paixão, sentindo-me o rei da cocada preta. Baleado, bambolê, frescobol, por onde andam essas formas simples de moldar adultos? Ir ao cinema, aos bailes, andar despreocupado pela cidade às três da madrugada. Jogar bola nas quadras da Boa Viagem até o amanhecer, apreciar o pôr do sol atrás do Farol ou no Alto de Ondina. Mais tarde um pouco, transar com a namorada no carro da mãe, deixando os joelhos em carne viva, lá pros lados de Piatã. Como lamento tanta transformação. Sei que nem tudo evolui para melhor, mas não me sinto capaz de deter o mundo. Algo está surgindo que ainda não delineio, um véu confunde meu horizonte. O Homem anda perdido em tanta tecnologia, é o que sinto. Talvez precisássemos retroceder um pouco, dar as mãos e recomeçar. Impossível, dizem. Resta-me a esperança de que Deus saiba o que está fazendo. Nós não sabemos.

Marcio Leite

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